UM ARTIGO INTERESSANTE...
...NO JORNAL i
Os encarnados estão em boa posição na luta pelo título, como há dois anos, mas tudo o resto está diferente. A começar no sistema táctico e a acabar nos jogadores, passando pela cautela do líder das águias.
Há treinadores que não se importam com o espectáculo, se a equipa joga bem, se os adeptos saem satisfeitos ou se os jogadores actuam nos sistemas preferenciais. Para alguns só vale a velha máxima de que “o que conta é que elas entrem”. Assim mesmo, friamente, desprezando tudo o resto. Conquistar os três pontos após os 90 minutos é o objectivo máximo e toda a filosofia de jogo assenta nesse “resultadismo”. Jorge Jesus não é assim. Nunca foi. Afinal este é o treinador que trouxe para a discussão um dos termos agora mais utilizados nas conversas futebolísticas entre adeptos, comentadores ou treinadores: a nota artística. Por outro lado, o técnico do Benfica também já foi menos cauteloso. Ou, melhor dizendo, mais dado a arriscar em campo.
É indiscutível que Jesus é um treinador de ataque. Em campo, com 11 jogadores, e nas conferências de imprensa com as palavras. A apresentação na Luz, em Junho de 2009, prova-o: “Quero fazer parte da história do Benfica. Quero ganhar títulos no Benfica. Não vim por questões económicas. Vim com um projecto desportivo. Vim porque acredito no projecto desportivo. Vim para o Benfica com a certeza e a convicção de que vou ser campeão nesta casa.” Assim é Jesus. Sem rodeios. Nos jogos tem uma pastilha na boca mas papas na língua são algo que não faz parte da sua maneira de ser. Depois prometeu mais: “Os jogadores do Benfica para o ano vão jogar o dobro. Só isso. E o dobro se calhar é pouco.”
Uma questão de risco Dois anos e meio depois da apresentação, a personalidade de Jesus mantém-se. Há diferenças, como é natural, mas ninguém pode dizer que o técnico mudou desde que está na Luz. Por outro lado, o Benfica passou por um processo de transformação por causa do técnico. Com jogadores diferentes seria impossível manter a dinâmica, mas algumas das preferências do treinador foram moldadas. Aos poucos, Jesus aprendeu a minimizar o risco e a encontrar soluções para conseguir os mesmos resultados de outras formas. Tal como há dois anos, o Benfica está bem encaminhado para lutar pelo título até ao fim. Há semelhanças com o Benfica-2010, mas este Benfica-2012 distingue-se essencialmente pelas diferenças. Unidos sim, mas pelo objectivo.
O Verão de 2009 foi um período de investimento. Saviola, Javi García e Ramires trouxeram argumentos fortes a uma equipa que já tinha valores como Cardozo, Di María e Aimar. A tarefa do técnica foi simples: arranjar uma forma de juntar os seis talentos e dar-lhes a liberdade necessária para exporem em campo tudo o que conseguiam.
O 4x4x2 em losango veio por arrastamento. A dinâmica fazia a diferença. Do outro lado da Segunda Circular, o Sporting continuava agarrado a esse sistema mas perdia nos intérpretes. Na Luz, parecia tudo perfeito. Ramires jogava mais por dentro à direita, Di María era um diabo à solta na esquerda e Aimar estava no melhor momento de sempre desde que assinou pelo Benfica. Depois, na frente, Saviola e Cardozo entendiam-se às cegas. Com a explosão de Fábio Coentrão e a permanência de Maxi Pereira, o Benfica partiu para uma grande época. O espectáculo trazia um problema. O plantel ainda não era muito profundo. Jesus camuflava afirmando que “não há suplentes no plantel”. Garantia que não havia um onze-padrão, mas ninguém sentia que, se tudo corresse bem, os 11 jogadores pudessem ser outros que não aqueles. Indiferentes a isso, os adeptos gostavam do que viam e respondiam com bancadas cheias.
Metamorfose Em 2011/2012 os benfiquistas continuam a gostar. Aos poucos, o 4x4x2 indiscutível começou a transformar-se cada vez mais para um 4x3x3. A saída de Ramires deixou a equipa órfã de um jogador com aquelas características e Witsel, apesar de ter muita qualidade, também não é exactamente igual. Não querendo abdicar de Aimar, Jesus começou a preferir jogar só com um avançado (preferencialmente Cardozo), para beneficiar depois das movimentações do argentino.
O onze gera mais dúvidas. Javi García e Witsel são mais intocáveis, mas os dois alas vão rodando. Bruno César e Gaitán partem em vantagem, mas o espanhol Nolito convence com golos e Rodrigo já obrigou o técnico a encostá-lo à direita. Por tudo, a equipa chega menos cansada a Dezembro. Não dá tanto espectáculo nem marca tantos golos, mas de resto é tudo muito semelhante. Há mais uma jornada que no Natal de 2009, mas os pontos, 33, são os mesmos. A diferença é que na altura já havia uma derrota (em Braga) e a diferença de golos era esmagadora (38-9), com goleadas ao V. Setúbal (8-1), ao Nacional (6-0), ao Leixões (5-0), à U. Leiria e à Académica (4-0). Este ano as goleadas foram desaparecendo do mapa e só no último jogo, ao Rio Ave, os encarnados chegaram aos cinco golos (5-1). Porquê? É uma equipa mais controlada, que começa a gerir as vantagens mais cedo e que perdeu a sede de marcar, marcar, marcar. Ainda assim, marca de forma mais regular, com 30 golos em 13 jornadas.
Declarações As conferências de imprensa continuam a ser um espectáculo. Há dois anos frisou que “os adversários nunca vão ter uma noção exacta dos posicionamentos do Benfica”. Agora destaca as águias como uma equipa que “ofensivamente sabe dançar muita bem”. Outras constantes foram as declarações pré- -natalícias. Em 2009 mostrou-se satisfeito com o Natal: “Devo confessar que já recebi a melhor prenda, aquela que mais desejava este ano. O que mais queria era a vitória sobre o FC Porto. Essa era a grande lembrança que ambicionava ter. Felizmente o Pai Natal, melhor dizendo, os meus jogadores, conseguiram oferecê-la.” Antes do jogo com o Rio Ave, este mês, voltou a referir-se ao homem de gordo e barbas vestido de vermelho: “Gostava de ter o presente do meu primeiro ano como treinador do Benfica. Para os mais distraídos, essa prenda é o título nacional.” Que, para os mais distraídos, acrescentamos nós, passa por voltar a vencer o FC Porto. Sem esquecer Sporting e Sp. Braga.

