VERDADES DETURPADAS - O BENFICA, A DEMOCRACIA E O ESTADO NOVO

 

 
O BENFICA, A DEMOCRACIA E O ESTADO NOVO
 
Ao contrário do que alguns querem fazer crer, nunca o Benfica foi o clube do regime deposto em 25 de Abril de 1974. Antes pelo contrário. No Benfica já havia democracia quando ela chegou ao País (eram célebres as assembleias gerais e as eleições no Clube) e nele chegaram a lugares de destaque conhecidas figuras da oposição.
 
Além disso, o Benfica inaugurou campos a 5 de Outubro e não a 28 de Maio, como outros o fizeram!...
 
“O Benfica era o clube do Regime”. Este é um dos ataques de que o Benfica continua a ser vítima, relacionando o clube com o Estado Novo, regime que vigorou em Portugal entre 1926 e 1974. Nada mais falso. O Benfica foi mesmo o clube que menos ligações teve com a ditadura e que mais dores de cabeça provocou a Salazar. Embora, nos últimos anos, por via das suas vitórias europeias e de ter Eusébio nas suas fileiras, tivesse dado bastante jeito ao regime, a propósito da sua política ultramarina. O Benfica nunca se serviu do regime (antes pelo contrário); o Benfica foi aproveitado pelo regime, depois de por ele prejudicado ao longo de muitos anos.
 
Eleições democráticas
 
Bastará recordar o facto de, num país onde vigorava uma ditadura e onde as eleições não eram livres, o Benfica ser um verdadeiro oásis, com as suas assembleias gerais bem concorridas e democráticas e com as eleições para escolha dos seus dirigentes, sempre muito participadas. Ainda antes de haver democracia no País já ela era praticada no Benfica!
 
Presidentes oposicionistas
 
As raízes populares do Benfica, que têm a ver com a sua fundação (bem diferente da do Sporting, por exemplo), nunca deixaram de se fazer sentir. E, ao contrário do que se verifica nos outros clubes grandes (Sporting, FC Porto, até Belenenses), os sócios que ascenderam à presidência do clube são de vários extractos sociais, desde um operário (Manuel da Conceição Afonso) a um aristocrata (Duarte Borges Coutinho), um e outro grandes presidentes que passaram pelo Clube.
 
 Mais que uma vez teve o Benfica declarados oposicionistas ao antigo Regime como presidentes, casos mais flagrantes do referido Manuel da Conceição Afonso, de Félix Bermudes, do brigadeiro Tamagnini Barbosa e do capitão Júlio Ribeiro da Costa, que não se quis recandidatar, uma vez que reconheceu que a sua presença à frente do Clube estava a fazer com que este fosse seriamente prejudicado pelas entidades oficiais. Recorde-se que, na altura, a organização desportiva nacional estava fortemente dependente dos organismos oficiais e, nomeadamente, da Direcção-Geral dos Desportos, na época, conhecida por “Direcção-Geral do Sporting”, tal a força que o clube de Alvalade nela tinha… Nela e em várias outras instâncias do anterior regime, como se pode apreciar através da composição do Conselho Leonino à data de 25 de Abril de 1974…
 
Outro exemplo elucidativo da distância que o Benfica mantinha do Estado Novo: o primeiro director do jornal do Benfica, entre 1942 e 1945, foi José Magalhães Godinho, conhecido oposicionista, que chegou mais tarde a presidente da Comissão Central do Clube.
 
Mas o Benfica teve também como dirigentes e sócios de relevo figuras afectas ao antigo Regime. No Clube não se faziam descriminações.
 
Sem campos de jogos
Enquanto o Sporting nasceu rico e nunca teve problemas com os seus campos de jogos, em terrenos doados pelos seus aristocráticos fundadores, e o FC Porto foi bastante ajudado na construção dos seus estádios, o Benfica passou por inúmeras dificuldades, saltando de uns pontos para outros da cidade.
 
Teve que deixar o campo em Benfica em 1923 para a construção de uma rua de acesso à antiga Escola do Magistério Primário que só viria a ser uma realidade em… 1992!
 
Foi expropriado do seu campo das Amoreiras para construção do viaduto de acesso à auto-estrada para o Estádio Nacional, tendo então que arrendar o antigo campo do Sporting, no Campo Grande. E só quase 50 anos depois da sua fundação conseguiu (e mesmo assim durante muitos anos a título precário) os terrenos na Luz, onde finalmente pode implantar o seu Estádio.
 
Uma questão de datas
 
Curiosas (e reveladoras!) as datas simbólicas utilizadas pelos clubes. O Estádio das Antas foi inaugurado a 28 de Maio (de 1952), dia comemorativo da revolução que deu origem ao Estado Novo. O antigo campo do Sporting que o Benfica viria a ocupar em 1941 ficava no topo do Campo Grande, então conhecido como Campo 28 de Maio.
 
Não só o Benfica nunca assim o designou (era, simplesmente, o campo do Campo Grande) como o inaugurou a… 5 de Outubro, data comemorativa da implantação da República e bem pouco do agrado do regime que então dirigia o País!
 
E ainda…
 
Há muitos outros exemplos que refutam claramente eventuais ligações do Benfica ao antigo Regime.
 
Desde as bandeiras do Benfica que substituíram as da antiga União Soviética (proibidas) aquando das manifestações populares que se seguiram à vitória
aliada na II Guerra Mundial (1945) à proibição dos jornais falarem nos vermelhos” quando se referiam ao Benfica, passando a denominá-los “encarnados”.
 
Desde o silenciamento progressivo do antigo hino do Clube, composto por Félix Bermudes em 1929, denominado “Avante pelo Benfica!” ao facto do Estádio da Luz apenas ter sido utilizado pela selecção nacional 17 anos depois da sua inauguração, em 1971, ao invés dos estádios do Sporting, FC Porto e Belenenses, que várias vezes viram neles jogar a selecção nacional. Isso nas
décadas de 50 e 60, quando a maioria dos jogadores da selecção era do Benfica! Era esta a “forte influência” do Benfica durante o Estado Novo?
 
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Duas opiniões insuspeitas
 
Numa crónica publicada no jornal “Record”, em Maio de 2000, Alfredo Barroso,
conhecido sportinguista e homem da oposição ao Antigo Regime, criticava os
acontecimentos verificados em Assembela Geral recente do Benfica, no tempo da gerência de Vale e Azevedo, e, a dada altura, escrevia: “E, no entanto, nos tempos da outra senhora, o Sport Lisboa e Benfica chegou a ser considerado como uma referência democrática, um oásis onde coexistiam vozes de todas as origens políticas e em que algumas figuras notórias da oposição ao Estado Novo chegaram a ser membros dos órgãos sociais do clube. Digo isto com tanto mais admiração e à vontade, quanto é certo que sempre fui adepto do Sporting Clube de Portugal, o qual, pelo contrário, era conhecido pelas suas notórias ligações ao Estado Novo e foi quase sempre dirigido por figuras mais ou menos proeminentes da extrema-direita do regime salazarista.
 
Para grande desespero de alguns adeptos que, por carolice ou amor à camisola, nunca viraram a casaca, apesar dos dichotes e bicadas (mais que justas) de muitos adeptos do Benfica.
 
Uma opinião insuspeita e clara, como a de Vasco Lourenço, um dos militares de Abril, presidente da Associação 25 de Abril, que, em entrevista ao jornal “Record”, publicada nesse preciso dia, de 2007, se afirmava sócio do Sporting há quase 40 anos, e com lugar cativo. A dada altura, respondendo a uma questão do jornalista relativamente a clubes que teriam sido beneficiados pelo (antigo) regime, Vasco Lourenço, embora considerando que nenhum era favorecido, reconhecia: “Os benfiquistas e os portistas
ainda hoje recordam aquele episódio do Góis Mota que, durante um Atlético-Sporting, entrou no balneário do árbitro com uma pistola para o ameaçar.
 
 No tempo do Salazar, aí pelos anos 50, o Sporting era o preferido, porque muitas pessoas do regime eram adeptas do clube. Góis Mota, Casal Ribeiro, entre outros. Anos mais tarde, o Belenenses era o clube do regime por causa de Américo Tomás. Mas era injusto dizer-se isso, porque ele era sócio e tentava proteger o clube, mas o Belenenses não usufruía de nenhum benefício.
Foi mais uma imagem que se criou. O Benfica sempre foi o clube do povo, e o Sporting mais de elites”, concluiu este adepto do Sporting.
 
«Viva o Benfica»… no cinema
 
No livro «Vítimas de Salazar», no capítulo referente à Censura (cap. 1, págs. 42 e 43), Irene Pimentel, uma das autoras, conta o que se passou em Portugal aquando da II Guerra Mundial e a forma como a população tentava manifestar o seu apoio aos Aliados.
 
Transcrevemos: “Locais privilegiados de difusão de propaganda foram também as salas de cinema, onde a projecção de documentários sobre a guerra provocava reacções entre os espectadores, que, perante a omnipresença da PVDE [antecessora da PIDE], arranjavam meios subtis de expressão.
O refugiado político Karl Retzlaw, que chegou a Portugal no Verão de 1940, relatou uma ida ao cinema, contando que, à entrada e dentro da sala, estavam polícias, prontos a intervir, caso surgissem manifestações do público. Numa ocasião, quando Hitler surgiu no écran, o público começou a arrastar os pés, quando surgiu Mussolini, os espectadores tossiram, e quando apareceram os monarcas ingleses, gritaram em uníssono: «Viva o Benfica!», identificando o popular clube de futebol com a Inglaterra.”
 
Mais uma prova de que o Benfica nunca foi o clube do antigo regime, muito antes pelo contrário…
 
Benfica campeão… em democracia
Outro dos ataques feitos ao Benfica – e relacionado com a sua presumível ligação ao Estado Novo – é a dificuldade que o Benfica teria com a implantação da democracia em Portugal.
 
Como resposta, basta ver o quadro seguinte com as vitórias nos Campeonatos Nacionais e Taças de Portugal nos 20 anos subsequentes ao 25 de Abril (1974-1994):
                   CN              TP
Benfica       10                7
FC Porto     8                 5
Sporting     2                  2
 
Além disso, nesse período, o Benfica esteve em duas finais da Taça dos Campeões Europeus e numa final da Taça UEFA.
 
As dificuldades por que o Clube passou nos últimos anos (e das quais está a recuperar, como é bem visível) tiveram a ver essencialmente com aspectos internos… e com argumentos extra-desportivos utilizados por outros.
 
 
HINO AVANTE BENFICA – CANTADO PELO ORFEÃO BENFIQUISTA, entretanto substituído pelo hino do Benfica de Luís Piçarra. 
"Todos por um!" eis a divisa,
Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.

Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.

Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!
Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!

Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

RF

GRANDE REMATE DE magalhaes-sad-slb às 16:18 | COMENTAR | favorito